segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Nova Iguaçu - Saudades de outros carnavais


Já se vão quase 60 anos. Naquele tempo eu mal acabara de nascer e minha infância se confunde com aquela pacata cidadezinha então já populosa por fazer fronteira com a Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde a maioria trabalhava.

Nova Iguaçu (já naquele tempo a grafia havia mudado de Nova Iguassú para Nova Iguaçú por causa da nova reforma ortográfica) era uma imensa cidade dormitório e suas fronteiras iam do distrito de Belfod Roxo até o de Queimados. O município, naquela época, tinha como limites Nilópolis, São João do Meriti e Duque de Caxias. Ficava perto do que eu conhecia como Belvedere, que mais tarde descobri chamar-se Seropédica, lá para os lados de Queimados. Hoje todos os distritos citados se emanciparam e são municípios.

Já existia a Grã-Fino e a Compactor, mas seu orgulho eram os Aços Finos (siderúrgica Hime, mais tarde adquirida pelo grupo Gerdau). Mas ainda existiam enormes plantações de laranja e por isso era cohecida como "Cidade Perfume" (quem diria?) por causa das lanranjeiras em floração. Mas a grande maioria da população trabalhava no Rio (naquele tempo, a então Capital Federal, era chamada assim) e tinha duas opções de acesso: de trem apertado ou pela via Dutra com acesso pela Avenida Brasil até a Praça Mauá pela Evanil. Não sei se melhorou.

Hoje a Rua Coronel Francisco Soares é parte central da cidade e o número 205, meu endereço na época, é um aglomerado de prédios. Mas não foi sempre assim. O que me lembro era de uma rua de terra com esgoto a céu aberto, que ficava próxima, quase na esquina da Avenida Governador Portela (a localização do número era outra) tendo do outro lado o terreno da Light, uma área onde corriam as torres de transmissão de energia elétrica e ficava uma horta onde eu ia comprar verduras (hoje é a Via Light). Próximo ao terreno da Light havia também um matadouro de porcos e quase em frente de minha casa havia um córrego. Nos fundos de casa, um muro nos separava do Instituto de Educação Rangel Pestana, onde estudei (quando me atrasava, eu pulava o muro) onde aconteciam bailes carnavalescos.

Me lembro especialmente do carnaval, que me marcou muito, pois eu tinha um misto de pavor e admiração pelo festejo. E, já no sábado pela manhã, eu e minhas irmãs perguntávamos para minha mãe se já estava na hora do carnaval. Não sei bem, mas me parece que naquele tempo havia horário e não local para o carnaval. Ao meio-dia saíam os foliões, vestidos de diabo, clóvis ou de sujo com o bate-bate na mão, feito de bexiga bovina. Disfarçados com máscaras que por vezes tinham uma língua desproporcional, pareciam-me seres estranhos e perigosos. Por isso eu e minhas irmãs nos escondíamos nos arbustos do jardim de casa, que tinha um muro muito baixo. Eles percebiam nosso temor e nos "descobriam" em  nosso esconderijo (na época eu achava que estava realmente escondido) e vinham com seus bate-bate em nossa direção fazendo-nos fugir, não sem antes levarmos uma esguichada de lança-perfume.

Ficávamos naquele entra e sai, vendo os foliões passarem para biricar o carnaval até à tarde, quando meu pai reunia a família, dava um saco de confete e um pacote de serpentina para cada um e saia para ver os blocos carnavalescos, que desfilavam em cordões. Os blocos eram constituídos de pessoas fantasiadas (ou não), de uma banda com tarol, surdo, repenique e tamborim, além de metais e instrumentos de sopro. Havia uma corda em torno dos carnavalescos, separando-os do público e dos outros cordões. Me lembro que o meu pai se afastava quando dois cordões se aproximavam um do outro, pois poderia ocorrer violência nestes confrontos, que nem sempre eram amistosos.

Poucas vezes tivemos latas de lança-perfume (Roda), pois eram caros. Nossos apetrechos geralmente se resumiam a confete e serpentina, mas ainda sinto o cheiro forte do lança perfume, que nos salões ficava ainda mais forte. A bebedeira era geral. A coisa ia ficando mais pesada e voltávamos para casa. De lá eu ficava ouvindo o baile no ginásio de esportes do Colégio Rangel Pestana (era conhecido assim, na época) já que eu e minhas irmãs éramos muito pequenos para frequentar à noite. Nossa participação se resumia à matinés de domingo e segunda-feira, quando nos esbaldávamos com as marchinhas carnavalescas inebriados pelo cheiro forte do lança perfume, pelo gosto de papel do confete envolvidos pela serpentina que se enroscava em nosso corpo, marca indelével do carnaval daquele tempo.

Mas é tudo lembrança. Hoje tudo mudou. Não sei se o carnaval mudou, se mudei eu, ou se todo o conjunto. Inclusive a outrora bucólica cidadezinha onde nasci, hoje já não é mais a mesma. Ficou tudo na saudade de velhos carnavais.

3 comentários:

  1. Eita!
    Fiz um tour...
    Peguei a Dutra e cheguei em Cabuçu.
    Claro, como sempre, passo por Nova Iguaçu. rsrsrs
    Valeu Erick.

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    Respostas
    1. É interessante, mas me parecem duas cidades diferentes: a Nova Iguaçú onde passei a infância e a Nova Iguaçu de hoje.
      Uma nada tem a ver com a outra. A gente sai, passa muito tempo e depois vê que a cidade onde nasceu não existe mais.
      Abraços

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